sexta-feira, 3 de março de 2017

Biografia

Reflexão autobiografada

Garantem-me que nasci em 27 de setembro de 1960, quando por casa decorria a vindima. À noite, depois da ajuda possível no transporte até ao lagar dos cestos pejados de uvas, a minha mãe terá dito que estava na hora e a avó paterna, ainda com as mãos adocicadas do mosto, ajudou ao parto, que foi natural, tranquilo e na mesma cama em que os meus pais haviam lançado a fértil semente nove meses antes.
Nessa altura, Portugal estava ainda, aparentemente pelo menos, em paz com as províncias ultramarinas, Amália Rodrigues encantava os ouvintes com a voz de sereia dos seus fados, Eusébio começava a levar ao rubro os amantes da bola e o clima da guerra fria ia sendo amenizado pelos acordes imberbes dos Beatles, Rolling Stones, e outros tantos que punham em delírio inumeráveis multidões de hippies que defendiam a máxima “Paz e amor”.
No lugar em que pela primeira vez assisti ao raiar da aurora, com pouco mais de uma dúzia de casas, entre oliveiras centenárias, toscas videiras enforcadas em arames que os negrilhos mal suportavam e as laranjeiras que no Inverno traziam ao cenário envolvente uma coloração de sabor agridoce,… parecia fatalmente condenado, como quase todas a crianças vizinhas, a ficar para sempre ligado a esse chão terroso, escuro e frio de onde a muito custo se ia arrancando o magro sustento. Mas os meus pais, ambos dedicados à costura, viram um pouco mais longe. Quando completei onze anos e a escola primária, mandaram-se estudar no berço da nacionalidade, entre o vetusto castelo afonsino e os lavados ares da Penha, que abriam um pouco mais o horizonte do nosso olhar inocente.
Depois, os ínvios caminhos da tormentosa interrogação vocacional permitiram-me passar um ano no “altar do mundo”, dois anos na capital e mais um na Cova da Beira, no sopé da Serra da Estrela.
Em 1982, ingressei na Faculdade de Filosofia e Humanidades, naquela a que chamam a “cidade dos arcebispos”. Despertou então em mim o fascínio encantatório pela língua portuguesa e pela literatura na lusa língua expressa.
Ainda antes de concluir o curso de Humanidades, comecei a lecionar língua portuguesa, verificando desde o primeiro dia que a docência é afinal uma mágica simbiose de ensino e aprendizagem, em que muito do que tem de se transmitir não nos foi a nós ensinado por ninguém e que a mais enriquecedora e valiosa mensagem a passar aos alunos é a que resulta da vida e da própria experiência vivida e refletida.
 Fafe e a sua Escola Secundária são, desde 1986, o poiso certo da minha atividade docente, que já conta com mais de um quarto de século e inclui gerações diferenciadas, tendo já interagido com alunos que hoje são pais e mães de outros alunos com quem vou interagindo. E hoje a escola, essa na qual que entrei no já longínquo mês de setembro de 1967, para nunca mais dela sair, tornou-se e mantém-se uma grande e verdadeira paixão. Até quando? Deus o sabe, mas não o diz!
                                                                       

                            António Gonçalves Teixeira

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